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O governo derrubou servidores, infectou blogs e cortou a malha telefônica
Essa foi uma semana de censuras. Atípica, portanto, em tempos de comunicação horizontal e sem fronteiras, em tempos de web 2.0.
Em Mianmar, em meio aos conflitos entre o exército local e monges budistas, o governo derrubou os servidores que garantiam o acesso da população à Internet. Até as redes telefônicas foram cortadas. A vergonha de ser visto pelo mundo inteiro como cenário da carnificina que assola a rotina de centenas de civis levou o governo a atitudes extremas. Nem a blogosfera local foi poupada. Um vírus de autoria atribuída ao Estado encarregou-se de deixar todos os blogs daquele país offline.
Dias depois, o governo chinês anuncia o bloqueio a sites cujas URLs contenham os termos "rss", "feed" ou "blog". Somente MAIS um critério de bloqueio para um país altamente censor da rede? Não. O povo chinês já era impedido de acessar uma lista imensa de sites, que incluem desde a rede britância BBC até a ONG Human Rights Watch. Para escapar desse firewall e manter-se informado sobre o que acontece prá lá da Grande Muralha, o jeito era acessar esses sites através de feedreaders. Agora, nem isso.
Apesar do absurdo que as duas situações representam, o que mais me impressiona é a situação em Mianmar, por evidenciar o impacto que a rede exerce na sociedade global enquanto mídia.
A preocupação do governo da antiga Birmânia em tornar o país um "ponto cego" na web tem a clara intenção de esconder as atrocidades que seu exército vem cometendo pelas ruas e casas de monges e civis. Além da vergonha, certamente existe uma preocupação com uma possível reação mundial que venha a colocar em xeque seu desempenho no conflito.
Isso me faz lembrar da Guerra do Vietnã, a primeira guerra televisionada. Nesse caso, a exposição do cenário bélico para a população estadunidense, via transmissões televisivas, provocou tamanho choque emocional, a ponto de fazer o povo mobilizar-se contra a guerra e a participação dos Estados Unidos no confronto. A repercussão desse movimento foi tão grande, que a imprensa inteira daquela país também posicionou-se contra o exército norte-americano. Países latino-americanos compraram a causa e manifestações pedindo o fim da guerra chegaram até o Brasil.
Percebam a viralidade da coisa e o poder de influência na opinião pública de uma mensagem midiática? E estamos falando apenas de televisão.
Quando o ambiente midiático em questão já não comporta sigilos e a informação circula sem controle por vias cada vez mais alternativas em quase todo o mundo, tudo indica que mostrar o sangue nas ruas de Mianmar a uma audiência global provoque uma reação ainda mais intensa de revolta e oposição ao conflito.
Sinal disso foi um movimento "blogosférico" no dia 4 de outubro, quando blogs do mundo inteiro foram convidados a incluir posts com a inscrição Free Burma.
Se a história se repetir, essa guerra tão emblemática no cenário digital pode ter um desfecho coerente com a cultura livre da rede. E acabar em breve.
Ana Brambilla (ana@weblivre.net) é jornalista, mestre em comunicação e mantém o blog Libellus.
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