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Enquanto o mundo se horrorizou por saber que a CIA e o Vaticano manipulavam verbetes da Wikipedia, a farsa da Baidu Baike foi abafada
Muito se falou de processos fraudulentos ocorridos na Wikipedia, quando o Instituto de Tecnologia da Califórnia lançou – e pôs para funcionar – o Wikipedia Scanner, há cerca de um mês. O softwarezito cruza cada modificação com os IPs das máquinas de onde elas foram feitas. Não dá prá saber quem, exatamente, editou tal e tal conteúdo, mas a tecnologia foi suficiente para desmascarar o Vaticano e a CIA, apontados pelo Scanner como autores/editores de verbetes que falam de perto aos interesses dessas instituições, de modo que favorecessem as suas imagens na maior plataforma colaborativa.
O episódio estremeceu as bases dos defensores convictos do sistema wiki, por identificar uma fragilidade em seu propósito-cerne, que é de promover um conhecimento aberto, livre de "paradogmas" institucionais. Por outro lado, a identificação desses "malas" foi um ponto favorável ao ambiente, visto que a partir do Wikipedia Scanner, vai ficar um pouquinho mais difícil manipular a informação na enciclopédia.
Nesse emaranhado, pouco ou quase nada se falou sobre a cópia indiscriminada de conteúdos da Wikipedia pela Baidu Baike, a saber: uma wikipedia made in China.
Baidu é o mecanismo de busca mais popular na China; mais ou menos como o Google é para nós. Em 2006, a Baidu lançou um mecanismo dedicado à construção "colaborativa" de uma enciclopédia exclusivamente em mandarim e batizou o espaço de Baidu Baike. De acordo com o fundador, Robin Li, o conteúdo do quarto maior site do mundo sofre uma alteração a cada dois segundos – seja na inclusão ou na edição de verbetes.
Ocorre que, na mesma época em que foram desvelados os casos de manipulação na Wikipedia e a propagou como um espaço de veracidade questionável, a Baidu Baike foi acusada de chupar uma penca de verbetes da sua irmã ocidental, traduzir para o mandarim e aumentar sua lista de conteúdo. Se pensarmos que a Wikipedia é bloqueada na China, ter uma "cópia", mesmo não autorizada, traduzida ao mandarim parece uma boa idéia. Mas nessa transcrição os textos sofrem alterações perigosas. A versão baidubaikiana de alguns verbetes aparece misteriosamente cortada a partir de sua matriz, na Wikipedia em inglês. Por exemplo, o verbete "Praça da Paz Celestial", onde estudantes foram mortos em 1989 pelo Exército de Libertação Popular, esquece desse episódio quando abordado na Baidu Baike.
Vale lembrar que a China mantém um firewall poderoso, capaz de controlar boa parte do conteúdo que circula pelas infovias daquele país. O sistema é complexo, conta com censores do governo rastreando blogs e fóruns sistematicamente. Com a Baidu Baike, não seria diferente.
Há ainda outra agravante: parece estranho achar errado alguém copiar um conteúdo que, afinal de contas, é livre! Mas ser livre não significa estar acima de qualquer regra. O conteúdo da Wikipedia está licenciado sob a GFDL (GNU Free Documentation License), e ela pressupõe que qualquer pessoa que utilize o material ali publicado disponibilize uma cópia TRANSPARENTE do item. A licença proíbe ainda "que se utilizem meios técnicos para impedir que pessoas que tenham acesso a qualquer cópia do item usufruam dos mesmos direitos que quaisquer outros. Versões modificadas do item também podem ser incluídas, desde que o autor da modificação concorde em também licenciar a versão modificada pela GNU FDL". (Trecho extraído do verbete "GNU Free Documentation License"
)Se, para editar um conteúdo da Baidu Baike é preciso estar logado a um sistema que quase exige que você informe o seu tipo sangüíneo, essa liberdade regulamentada da GFDL não é mantida sobre os verbetes daquela enciclopédia.
Wikipedia não é nem perversa, nem boazinha. Nem espaço desconfiável, nem oráculo. Tudo depende de quem circula por ela e você influencia nisso. Até mesmo em se abster a editar. Mas chamar Baidu Baike de "enciclopédia colaborativa" é, no mínimo, uma afronta.
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Ana Brambilla é jornalista e autora do blog Libellus.
Jose Alberto Cordeiro em 14/09/2007
Muito oportuno o conteudo deste artigo em um periodo da vida "digital" no qual os internautas estão se tornando apoliticos.
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